
Um domingao preguicoso de sol! O que fazer com seu bebê de 13 meses aqui nessa terra enquanto seu marido resmunga fazendo a Declaracao de Imposto de Renda?
Obviamente, a resposta mais lógica é espantar a preguica, pegar o kit para brincar no tanque de areia, colocar seu filho no carrinho e caminhar alegremente pelo parque mais próximo até chegar ao playground!
Que lindo!!! Quantas criancas com sorrisos ensolarados e suas doces mamaes acompanhando as bricadeiras...Coloco meu pacotinho (que ainda nao anda livremente) sentadinho na areia e tiro suas "ferramentas" de uma sacola. Isso enquanto éramos observados atentamente por uma linda garotinha loirinha de seus 4 anos de idade.
Sorri benevolamente para a garotinha e me concentrei em ensinar o Antonio a cavar a areia. Nem percebi que havia alguém se aproximando até ouvir a voz melódica e gentil de uma senhora ao meu lado, acompanhada da já mencionada garotinha, que estava aos prantos!
A tal senhora - A quem atribuí uns 40 anos de idade - solicita que eu devolva a pazinha de plástico de sua filha. Sentada, com a visao ofuscada pela inebriante luz solar, encarei a criatura. Vestia uma linda e discreta calca capri branca, justa e transparente (fato que nao lhe favorecia muitas as formas), calcava altíssimas sandálias brancas de gosto duvidoso e enormes óculos de sol.
Nao sei se foi meu alemao capenga, ou se foi a mera dificuldade em conseguir captar o que estava acontecendo, mas fui obrigada a fazer cara de quem nao entendeu. Diante de meu ar aparvalhado, a respeitável senhora se exaltou e comecou a dizer que sua filha tinha uma pá igual a que meu filho tinha em maos, e que portanto, meu bebê tinha lhe tirando o brinquedo. Atônita, cacando palavras, balbuciei que nao poderia ser, já que tinha acabado de chegar e de tirar o conjunto de brinquedinhos de areia da minha bolsa.
A doce mae do anjinho loiro sorriu cinicamente e me afirmou ter visto quando meu mestico e moreno filho andou até o local onde a inocente crianca brincava, lhe tirou a pá das maos e voltou para perto de mim para brincar. Nao resisti e gargalhei nervosamente, enquando todas as simpáticas maes e seus rebentos nos observavam disfarcadamente. Encarei-a e disse que eu adoraria ter visto meu filho ter feito tudo isso, já que ainda está tentando dar seus primeiros passinhos.
Ao ouvir minha observacao, minha delicada interlocutora gritou um educado "Tanto faz" e solicitou delicadamente mais uma vez que eu lhe entregasse a pá do meu filho. Por um momento de fraqueza, até pensei em entregá-la para evitar uma situacao tao constrangedora como aquela (e. obviamente, eu poderia comprar mais 10 pás para meu filho no dia seguinte por uns 50 centavos de euro a unidade), mas meu lado terceiro mundista, cruel, maldoso e desonesto de estrangeira foi mais forte e eu lhe disse categoricamente que NAO! Nem sobre o meu cadáver! Ainda pedi que ela olhasse as marcas das pecas dos brinquedos e comparasse com as do de sua filha, mas obviamente uma pessoa tao nobre, educada e européia como ela nao poderia se rebaixar a esse ponto. Sugeri também que ela procurasse o brinquedo da menina no local onde ela brincava, mas acho que a madame nao queria sujar seus lindos sapatos de salto.
Tentei ignorar seus zumbidos, mas como pessoa de sangue azul que é, persistia em passar pelas minhas costas falando com a filha num tom de voz contundido que era uma tristeza as pessoas serem tao maldosas a ponto de tirar o brinquedo de uma crianca, vê-la chorando e nao devolvê-lo. Eu- uma criatura das trevas amazônicas, descontrolada e perigosa - acabei aumentando meu tom de voz para delegantemente mandá-la calar a boca, antes que eu mandasse chamar a polícia para solucionar o problema.
A nobre germânica voltou para seu assento ao lado do seu digníssimo marido , cujas fisionomia, postura e participacao naa cena, lembravam-me uma estátua de Buda. Qunata classe! Ser de quinta classe que sou, nao tive o sangue frio para voltar a brincar tranqüila e calmamente com meu filho e fiquei ruminando meus sentimentos mesquinhos. Pensei em me levantar e ir embora. mas isso apenas lhe confirmaria meu crime hediondo.
Ainda tive a idéia de escavar o "local do crime", mas minha inferioridade me segurou mais uma vez. Para que eu iria trabalhar para essas pessoas superiores do Primeiro Mundo? Seria um retrocesso ao tempo da escravidao.
Só que dessa vez Deus provou ser brasileiro e miscigenado. Enquanto observava rancorosamente o local onde o anjinho brincava, vi o que parecia um anel verde de plástico! Nao resisti às minhas raízes servis e levantei-me para ver o que era. Raspei o local com meus sujos tênis de guerra e vi a reluzente pazinha (que tinha um tom de verde totalmente diferente da do meu filho e pelo menos o dobro do tamanho). Encarei a senhora que me observava a uns 800 metros de distância, sorri e balancei minha cabeca. Agachei-me rapidamente, peguei o tao precioso objeto e fui com ele em maos até o meio do tanque de areia. Lá, orgulhosamente, levantei meu braco com o resultado da minha escavacao arqueológica e declarei minha inocência.
Olhei bem para minha altiva opositora e lancei aquela porcaria ao chao. Na verdade, toda minha raiva me pedia para caminhar até ela e lhe esbofetear as alvas e arianas faces com aquele instrumento, mas os meus poucos genes europeus foram provavelmente os responsáveis por eu nao ter agido com tal barbaridade (apesar do que, se meus genes romenos aflorasses, eu alegremente a empalaria com a pazinha verdolenga).
Voltei para meu lugar ao lado do Antonio, com o peito ainda arfando de ódio. E o que fez aquela senhora cheia de classe? Surpresa! Após ouvir alguns impropérios de seu elegante cônjuge, veio humildemente - considerando sua superioridade - pedir-me desculpas!!! Obviamente fora desculpas cheias de um tom de paternalismo e superioridade que me provocaram ainda mais raiva.
Pois olhem como sou má! Eu disse que nunca a desculparia, e que o que ela tinha feito nao tinha perdao. No meu mau e porco alemao acusei-a de ser limitada e cega. Ela ainda tentou se justificar dizendo que sua pobre e perfeita crianca chorava, por isso teve certeza de que ela nao estava mentindo.
Como eu sou muito podre e inferior, acabei afirmando que aquele doce anjinho estava aprendendo a ser mentirosa com ela, já que seu exemplo de mae havia afirmado que viu uma crianca que ainda nao é "pedestre" caminhar até sua filha para lhe tirar o brinquedo.
Estupidamente, ainda acrescentei que da próxima vez que isso acontecer, ela deve procurar as coisas da filha antes de atacar um ser de casta inferior como a minha. Sugeri que tirasse seus lindos sapatos de salto alto para nao entalar na areia e sujar suas brancas calcas! Como pude ser tao brutal e leviana?
Sinceramente, ainda nao fui ainda mais peconhenta porque meu típico descontrole emocional de raca inferior nao permitiu que eu conseguisse usar meus conhecimentos mais avancaados do idioma alemao, mas considerando-se justamente o fato de ser apenas uma criatura do terceiro mundo, já é praticamente um milagre que tenha conseguido emitir alguns grunhidos inteligíveis!
Ainda cheguei em casa aos prantos e afirmei para meu marido que quero voltar para o buraco de onde saí no Brasil. Lá, Sao Paulo, terra de gente selvagem, mal-educada e estúpida! Lá, onde eu jamais fui acusada de ter roubada nada, muito menos uma pazinha de plástico barato!
Mas aprendi minha licao. Achava que só precisaria me preocupar com esse tipo de situacao quando o Antonio entrasse para o Jardim da Infância aos três anos de idade, mas já estou marcando seus brinquedinhos de passeio com seu nome para as próximas guerras que eu tenha que enfrentar. Afinal, uma hóspede como eu tem que vitar incomodar nossos queridos anfitrioes de todas as formas possíveis!
E como me disse uma amiga: "E que venham os romanos"!
P.S.: Em tempo: gente! Eu nao estou pensando realmente em voltar prá Sao Paulo por causa disso. Escrevi este post há alguns dias no calor da emocao e da raiva...kkkkkkkkkkkkkkkkk...Conheco muitos alemaes bacanas, bem-educados e abertos. Mas, infelizmente, ainda dá prá encontrar com facilidade pessoas idiotas, limitadas e com a cabeca ainda meio perdida no início do século e nos estúpidos ideais arianos (ainda que sequer tenham capacidade para entender o que é ser ariano, muitas vezes sao mais miscigenados do que eu...kkkkkkkkkkkkk)


























































































































